Por Dentro da Lei

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16 de dezembro de 2011

Vilém Flusser: Língua e realidade - resenha



Nos dias atuais, há uma linha de pensamento em Teoria do Direito que se opõe ao positivismo e busca trazer questões referentes à Filosofia da Linguagem aos estudos jurídicos.



Uma das obras principais para dar fundamento a essa corrente é o livro de Vilém Flusser, denominado “Língua e realidade”, do qual se apresenta uma resenha, com o intuito de facilitar um primeiro contato.



Resenha é uma modalidade de trabalho científico em que o autor apresenta uma leitura daquilo que encontrou numa determinada obra, buscando apontar o foco central do tema tratado, portanto devem ser evitadas expressões qualificativas e adjetivadoras, pois há exigência, dentro do que é possível, de certa objetividade no texto da resenha.



A obra de Flusser permite o encontro de uma linha central de reflexão, mas é impossível cumprir o requisito da objetividade: o livro é fantástico! Mesmo para quem não tenha tido nenhum contato com o tema central, ele provoca algum arrebatamento em termos de provocação para o pensar.



Cometida esta falta procedimental, falemos do tema do livro: trata-se de uma proposta de apresentar uma teoria da tradução, a qual se insere no campo mais amplo da filosofia da linguagem.



Mas como um tema de linguística, que é a tradução, pode estar incluído em questões filosóficas, mormente daquela esfera denominada filosofia da linguagem? Para responder a esta pergunta, Flusser escreve o livro. Para esclarecê-la, estrutura-o em quatro partes, a saber:

1) a língua é realidade

2) a língua forma a realidade

3) a língua cria a realidade

4) a língua propaga a realidade



Como se pode ver por este sumário, tradução, língua e realidade são os elementos com os quais Flusser trabalhará durante todo o texto. A questão é como ele articula estes três elementos criando uma obra filosófica, sem características filosóficas, que provoca profunda reflexão no leitor, podendo até mudar paradigmas de pensamento e existenciais, dependendo de como e com qual profundidade for lido.



O livro é escrito numa linguagem simples, quase sem emprego de termos complexos ou pertencentes exclusivamente ao campo da filosofia ou mesmo da linguística, enfim sem qualquer jargão científico de plano fechado. O texto pode ser lido como um romance no sentido de haver uma narrativa que faz o leitor acompanhar a obra, ao mesmo tempo em que a obra acompanha o leitor durante o percurso. Neste sentido, o livro é dialético, faz o leitor acompanhar seu discurso, enquanto o discurso acompanha o leitor – e, possivelmente em todos os casos, modifica o leitor. E isto é literatura e não ciência, menos ainda aquela ciência dogmática, fechada em si mesma.



O livro é uma abertura para o tema do qual trata, porém, mais do que isso, é uma abertura para a compreensão do humano, da realidade humana, por isso a “realidade” do título, a qual, segundo Flusser, se dá pela linguagem e aqui a justificativa “língua” também no título.



Na introdução do livro, Flusser já apresenta esse tema, fazendo um rápido percurso sobre a necessidade humana de saber (talvez indiretamente lembrando Aristóteles, para quem o “homem tende naturalmente ao saber”, conforme sua Metafísica) e apresentando num parágrafo como essa necessidade – ou natureza – se manifesta: por meio da classificação. É por meio da ordem que o homem descobre o mundo. A procura de uma estrutura ordenadora do mundo orienta o humano em suas investigações, a qual se dá por dois sistemas, um de referências e outro de regras. O primeiro para inserir coisas e colocá-las em cada posição de acordo com sua forma e o segundo para organizar e coordenar esse posicionamento. Trata-se da catalogação do mundo e de sua hierarquização, respectivamente, posição e relação.



As escolas filosóficas variaram em torno destes dois últimos elementos no que tange a como eles poderiam ser articulados. Hoje, tendo o conceito de verdade perdido seu vigor semântico e científico, as conclusões caminham para um posicionamento pragmático vazio. Contra isto é a proposta de Flusser e ele é claro: mostrar que a estrutura do cosmos, do mundo se assenta sobre a língua.



Como? A realidade do mundo se assenta sobre a língua? É isso mesmo. A realidade do mundo, toda nossa realidade, vivência, experiência, conhecimento, sensações, tudo está na linguagem. Loucura? Sim, mas é verdade, ou melhor, realidade, ou seria linguagem?



Já no primeiro capítulo – Flusser não perde tempo com divagações – o leitor já é lançado para o abismo do problema: língua é realidade. Mediante experiências concretas, Flusser demonstra que a realidade humana está estruturada toda ela num sistema de linguagem. Ele realmente realiza experiências, claro não aquelas de laboratório, mas outras muito melhores. Como ele falava alemão como primeira língua e conhecia outras sete fluentemente, além de mais algumas que estudava – ele escreveu o livro em português – retira da análise de situações fáticas as diferenças e semelhanças existentes entre línguas diversas.



Com isso, com essa experiência teórica, Flusser consegue quebrar a noção, normalmente imaginada, de que haveria dois conjuntos distintos: o dos dados brutos e o das palavras. O primeiro da realidade das coisas, as quais “têm” uma propriedade exclusiva; o segundo de uma ferramenta que “representa” a realidade das coisas.



Flusser demonstra que toda realidade é simbólica, porque são as palavras organizadas num modo de expressão, denominado língua, que autorizam toda e qualquer aproximação com o mundo. Neste existem sensações, por exemplo, um choque com uma mesa, na realidade dos dados, não é o choque com uma mesa, mas um conjunto de procedimentos que formam uma situação denominada “choque com uma mesa”, da forma seguinte: caminhar – tocar algo áspero e duro (forma específica) – impedimento do caminhar – alteração de sensação no lugar do toque – sensação desagradável (dor) – continuidade de tal sensação – conclusão. Sem linguagem, a situação seria essa, com a dificuldade ainda de escrevê-la e maior de descrevê-la. Com a linguagem, a conclusão seria “bati o joelho contra a mesa enquanto andava”. Toda a frase exige um conhecimento prévio de cada uma das expressões contidas para descrever a desagradável sensação de confrontar-se fisicamente com um objeto. Imagine descrever a situação sem a linguagem, como exercício.



Todas as sensações ou experiências humanas são assim organizadas, estruturadas, arquivadas, posicionadas na linguagem. E é esta mesma linguagem que contém as regras para realizar tal organização. Assim, é a linguagem que fornece a estrutura de classificação do mundo. É a língua que dá ordem ao mundo e que o faz mundo.



O processo se torna mais complexo com a experiência de explicar o “choque contra a mesa” em outra língua. Flusser faz diversas experiências com diferentes situações para mostrar que não existe um conjunto de dados brutos de um lado e, de outro, dois conjuntos, o da língua 01 e o da língua 02, os quais devem corresponder ao primeiro. É a partir da língua que se instala a realidade. Assim, em alguns exemplos, Flusser demonstra que para certas línguas “a mesa caminha para o joelho” (o exemplo não é bem este, mas serve para ilustrar). Com uma série de exemplos desta natureza, Flusser comprova o que diz. A língua é realidade.



A língua é realidade, mas isto não forma um sistema fechado. A prova é empírica, pois os seres humanos se comunicam em línguas diversas. Aqui entra a tradução e a base de sua teoria. Tradução é, para Flusser, toda passagem de qualquer experiência humana, da mais simples à mais complexa, para a linguagem, fazendo com que esta experiência torne-se realidade, construa o mundo e, via de consequência, faça-se compreensível. Não há um conjunto de dados brutos que se relaciona com a língua 01 e com a língua 02. Não há uma fonte comum de realidade, na qual mergulham as línguas e da qual retiram suas expressões. É o contrário.



A língua 01 forma um sistema e a língua 02 forma outro. No sistema da língua 01, uma expressão X tem lugar, posição e uso semelhante a uma expressão Y da língua 02. Há uma relação de classificação e hierarquização entre a expressão X da língua 01 e a expressão Y da língua 02 que permite uma aproximação para a compreensão de situações. O mundo da língua 01 se aproxima do mundo da língua 02 por meio respectivamente das expressões X e Y. Há uma tradução neste sentido. Há um parentesco entre as línguas, este parentesco é ontológico, de “ôntos” (ser) e “logos” (discurso), um parentesco de discurso sobre o ser que cada língua contém, na base do qual esta se constrói e constrói, consequentemente, o mundo.



Como Flusser afirma, esta análise é mais laboriosa, mas retrata a realidade do humano de forma mais adequada, mais clara e mais coerente com outros estudos, inclusive de filosofia da linguagem e até de neurociência.



Essa é a articulação proposta por Flusser em “Língua e realidade”: a língua é a realidade porque é o sistema que estrutura (hierarquiza e organiza) toda experiência humana (a qual não existe em si mesma). A realidade é a língua em todo seu conteúdo histórico de regras e vivências acumuladas, traduzidas numa forma comum de compreensão, a qual possibilita a passagem de toda experiência ao outro e do outro ao um. É à “medida que a conversação progride”, com seu sistema de linguagem, que “a natureza se transforma” e “forma a civilização”. A civilização surge quando a formulação dos conceitos é já realizada. Neste sentido, a natureza é condição da civilização e a civilização é natureza transformada.



E a ciência é uma forma especialmente desenvolvida e concentrada de civilização, enquanto a verdadeira filosofia ultrapassa a camada da conversação e participa da camada da poesia (poiesis), aquela camada da linguagem que consegue mergulhar e trazer à tona o indizível, aquela qualidade da experiência humana que só os poetas conseguem expressar.



O livro de Flusser é um convite, assim, não a ciência ou a filosofia, mas a poesia, em sua forma mais primitiva e inspiradora. É um livro maravilhoso!

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